Dalva Silveira (DS), a entrevistada do mês, registra em seu percurso atuações em diferentes campos artísticos, culturais e científicos, como o teatro, a poesia, a pesquisa e a educação. Se, por um lado, ela encontrou no teatro e na poesia formas de expressão, foi na escrita e no ensino que ela consolidou sua missão: questionar paradigmas e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e consciente.
Dalva impressiona não apenas pela densidade de sua sensibilidade, mas, sobretudo, pela firmeza de seu compromisso social e pelo profundo respeito à palavra. Seu trabalho reflete posicionamento, consciência histórica e responsabilidade cultural.
Não surpreende que, ainda jovem, tenha identificado o caminho profissional que lhe traria realização. O contato precoce com a música de protesto influenciou sua escolha pela Graduação em História. Posteriormente, o mestrado e o doutorado em Ciências Sociais conduziram-na a pesquisas sobre o período da ditadura militar brasileira, com ênfase na música dos anos 60 e na imprensa alternativa da década de 1970.
Autora de Geraldo Vandré: A Vida Não se Resume a Festivais e De Realidade a Caros Amigos – a Turma do Ex – Imprensa Alternativa e Seu Legado, Dalva também cultiva a poesia desde criança. Os versos que habitaram a menina jamais abandonaram a mulher, que escreve por convicção, ideal e paixão.
Com uma carreira em construção, a autora destaca como influências para a literatura: Lygia Fagundes Telles, Lima Barreto, Conceição Evaristo, Fernando Pessoa, Ferreira Gullar e Franz Kafka; na filosofia: Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Michel Foucault. Na música, evidencia Geraldo Vandré, Belchior, Chico Cesar, Ivan Lins, Taiguara, Gonzaguinha, Chico Buarque, Sérgio Sampaio, Torquato Neto, Raul Seixas, João Bosco, Aldir Blanc, Adoniran Barbosa, Cazuza, Zeca Afonso, Victor Rara e Nina Simone.
Questionada sobre como ela se define, Dalva se declara poetisa e amante das artes em geral, com destaque para a música e a literatura, suas companhias inseparáveis. Se referindo a seu trabalho como bibliotecária no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), a escritora explica que, desde criança, os livros despertaram sua paixão, por isso a biblioteca foi o local de trabalho em que ela se sentiu mais feliz.
Vocação
CV. 1. De que forma a sua infância e juventude influenciaram sua escolha?
DS. Nasci em 1967, cresci em um contexto marcado por diversidade social e pelos anos mais duros da Ditadura Militar. A perda precoce do meu pai e a necessidade de trabalhar, desde os 10 anos, ampliaram minha percepção das desigualdades e adversidades da vida. Estudei em escolas públicas e participei do movimento estudantil nos anos 1980. Enquanto o teatro me proporcionou uma experiência transformadora, o contato constante com a música de protesto e debates políticos aguçaram minha consciência crítica.
Tive a felicidade de contar, na educação primária, com uma professora extraordinária: a saudosa Dona Emar, que me apresentou o universo da literatura, paixão que me acompanha desde então. Concluí o ensino médio no tradicional Colégio Estadual Central, onde participei de um forte movimento estudantil, nos anos 1980, período de intensa mobilização pela retomada das liberdades civis.
Na década de 1970, cresci cercada por cinco irmãos mais velhos e, desde cedo, ouvi músicas de temática política em discos de vinil, além de acompanhar notícias sobre a repressão militar, que muito me impactavam.
“Essas vivências influenciaram minha escolha pelas Ciências Humanas e fundamentaram meu compromisso com a educação, a memória histórica e a justiça social”.
CV 2. Como sua trajetória pessoal e acadêmica influenciou sua escolha pela escrita e pela pesquisa histórica?
DS Como já deixei claro, minha vocação surgiu ainda na juventude, especialmente a partir da vivência no teatro e do contato precoce com a música de temática política. Essas experiências despertaram em mim o interesse pelas Ciências Humanas e influenciaram minha escolha pela Graduação em História, disciplina que lecionei por 15 anos.
Posteriormente, concluí mestrado e doutorado em Ciências Sociais, dedicando-me à pesquisa sobre a Ditadura Militar Brasileira, com foco na música dos anos 60 e na imprensa alternativa dos anos 70.
Esses estudos resultaram na publicação dos livros Geraldo Vandré: A Vida Não se Resume em Festivais e De Realidade a Caros Amigos – A Turma do Ex –, imprensa alternativa e seu legado, além da realização de palestras em diversas cidades brasileiras. Paralelamente, retomei a poesia, mantendo como eixo central o compromisso com a memória, a justiça social e a resistência a todas as formas de opressão.
Docência
CV 3. Por que a História e as Ciências Sociais se tornaram o seu caminho acadêmico e de atuação docente?
DS Desde o ensino fundamental, a História despertou em mim uma vontade enorme de me aprofundar no conhecimento dos diferentes lugares e culturas, bem como das lutas da humanidade em busca de melhores condições sociais, mas, com certeza, o meu contato precoce com a música de temática política foi fator preponderante para a minha opção pela graduação em História.
“Com certeza, o meu contato precoce com a música de temática política foi fator preponderante para a minha opção pela graduação em História”.
Em 2008 e 2012, decidi participar de um processo seletivo para cursar, respectivamente, o Mestrado e o Doutorado em Ciências Sociais, da PUC-SP e fui aprovada. A realização dos cursos em muito ampliou o meu conhecimento das sociedades.
CV 4. Como foi sua experiência como professora por 15 anos e o que esse período lhe ensinou sobre educação e transformação social?
DS Formei-me em História há 30 anos e exerci a docência no Ensino Fundamental e Médio com dedicação e compromisso. Foi um período de intenso aprendizado, tanto profissional quanto pessoal, marcado pela troca constante com os alunos e pelo exercício diário da responsabilidade social que a profissão exige.
Sempre acreditei no papel transformador da educação. Por isso, busquei estimular o pensamento crítico, o senso de coletividade e a autonomia intelectual dos estudantes, por meio de debates, análise de textos e atividades criativas, como projetos e encenações teatrais.
Embora nem todos os objetivos tenham sido plenamente alcançados, presenciei inúmeros processos de superação, amadurecimento e definição de trajetórias profissionais. Essa experiência reforçou minha convicção de que a educação, quando exercida com compromisso e propósito, é uma ferramenta concreta de transformação social.
“ […] A educação, quando exercida com compromisso e propósito, é uma ferramenta concreta de transformação social”.
CV 5.Sua trajetória no CEFET-MG passou por diferentes setores. O que esse percurso representou para sua relação com o conhecimento e com as pessoas?
DS. Atuei como servidora do CEFET-MG por 31 anos, nas áreas de Secretaria, Estágio e Biblioteca. Sem dúvida, cada um desses setores contribuiu para meu crescimento profissional e ampliou minha capacidade de dialogar e conviver com as pessoas, entretanto o trabalho que mais me realizou foi o que desenvolvi na biblioteca.
Minha relação com os livros vem da infância e foi fortalecida pela experiência na Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, espaço fundamental na minha formação acadêmica. Ali estudei, concluí o Segundo grau e me preparei para o concurso do próprio CEFET.
Ao trabalhar na biblioteca da instituição, minha principal meta foi incentivar os alunos a desenvolverem o hábito da leitura e a valorizarem o estudo como instrumento de emancipação. A convivência diária gerou trocas enriquecedoras e reforçou minha convicção de que bibliotecas são espaços estratégicos de formação, especialmente em um país marcado por profundas desigualdades sociais.
“A convivência diária gerou trocas enriquecedoras e reforçou minha convicção de que bibliotecas são espaços estratégicos de formação, especialmente em um país marcado por profundas desigualdades sociais”.
Vandré
CV 6. Como nasceu o livro Geraldo Vandré: a vida não se resume a festivais e qual a importância dessa obra na atualidade?
DS O interesse por Geraldo Vandré nasceu ainda na infância, quando ouvi repetidamente suas canções em um Long Play que minhas irmãs levaram para casa. Ao mesmo tempo, circulavam notícias enigmáticas sobre sua prisão, exílio e suposta “loucura”, o que despertou em mim questionamentos que permaneceram ao longo dos anos. Já na graduação em História, ao estudar a Ditadura Militar, essas lembranças retornaram com força e passaram a integrar minhas inquietações acadêmicas.
Em 2005, ao cursar uma disciplina sobre memória cultural na UFMG, amadureci a decisão de pesquisar a trajetória de Vandré para compreender tanto a sua produção artística quanto as representações construídas em torno de sua figura. Posteriormente, no Mestrado em Ciências Sociais, na PUC-SP, desenvolvi a pesquisa que resultou na dissertação e, mais tarde, no livro. Desde o início, meu objetivo foi transformar o trabalho acadêmico em uma obra acessível, capaz de dialogar com um público mais amplo, para além dos muros universitários.
A relevância do livro, na atualidade, está na necessidade permanente de preservar a memória histórica. Revisitar as tensões e violações do período da Ditadura Militar é fundamental para compreender o presente e fortalecer a democracia. Diante do ressurgimento de discursos autoritários, considero essencial reafirmar valores como liberdade de expressão e direitos humanos. O retorno positivo de leitores e participantes de palestras confirma que a obra contribui para reflexão crítica e conscientização, reforçando o papel da memória na construção de uma sociedade mais justa.
CV 7. Que leitura você faz sobre a recepção desse livro pelo público e pelo meio acadêmico?
DS. A recepção do livro tem sido muito positiva e, para mim, surpreendente. Após a publicação, percebi que não estava sozinha: há um público significativo interessado na obra de Geraldo Vandré. Muitos leitores se aproximaram por afinidade intelectual e afetiva, formando uma rede de diálogo que considero um dos maiores ganhos do trabalho.
O retorno tem vindo tanto por meio de mensagens, debates, palestras e produções acadêmicas quanto em espaços populares com comentários, perguntas, críticas e elogios.
“Fico especialmente satisfeita quando jovens leitores demonstram interesse, pois isso indica que a obra contribui para apresentar às novas gerações um compositor que sofreu tentativas de apagamento histórico, além de estimular reflexões sobre o período da Ditadura Militar”.
Não estabeleço, contudo, uma distinção entre recepção acadêmica e popular. Embora tenha dialogado com universidades, grande parte das palestras ocorreu em espaços abertos ao público em geral. Para mim, isso é fundamental, pois acredito na democratização do conhecimento.
Acredito que a arte, a memória e a reflexão histórica devem ultrapassar os muros da academia e alcançar a sociedade como um todo. Essa é uma condição essencial para a construção de uma consciência crítica e de uma sociedade mais igualitária.

A turma do Ex-
CV 8. O que motivou a escrita de De Realidade a Caros Amigos – a Turma do Ex-, imprensa alternativa e seu legado e quais as contribuições dessa obra?
A motivação para o estudo surgiu durante a pesquisa sobre Geraldo Vandré, quando me deparei com o grupo de jornalistas que denominei “Turma do Ex-”. Ao investigar a imprensa do período, conheci a trajetória desses profissionais afastados da revista Realidade, após uma demissão coletiva em meio à repressão da Ditadura Militar.
A partir de 1970, eles passaram a atuar na chamada imprensa alternativa, produzindo publicações como O Bondinho, Grilo e Ex-, esta última responsável pela primeira matéria sobre Vandré, após seu retorno do exílio, e pela única reportagem escrita, à época, sobre a morte de Vladimir Herzog, em 1975, episódio que contribuiu para o fechamento do jornal.
A pesquisa revelou ainda outras iniciativas do grupo, como Novidades Fotóptica, Revista de Fotografia, Foto-Choq, Jornalivro, além da participação de seus integrantes em periódicos de oposição como Extra – Realidade Brasileira e Repórter Três. Anos depois, em 1997, um dos fundadores do grupo, Sérgio de Souza, lançou a revista Caros Amigos, estabelecendo uma continuidade desse projeto de jornalismo crítico. Essa trajetória foi reconstruída em minha tese de doutorado e, posteriormente, transformada em livro que apresenta, com linguagem acessível, a análise dessa verdadeira guerrilha jornalística.
A obra contribui para evidenciar a importância das mídias alternativas na preservação da memória histórica e na resistência aos regimes autoritários. Ao não estarem subordinados à censura prévia ou aos interesses do Estado, esses periódicos registraram arbitrariedades e acontecimentos, muitas vezes, ausentes da imprensa tradicional, devido à repressão da ditadura militar.
O estudo também propõe uma reflexão sobre as transformações do jornalismo brasileiro, sua crescente industrialização e os impactos disso na produção da informação. Desse modo, a obra reafirma a relevância da imprensa crítica como instrumento de denúncia, memória e defesa da justiça social, valores que orientam minha trajetória intelectual.
Poesia
CV 9. Após anos dedicados à pesquisa acadêmica, o que a fez retornar à poesia em 2014?
DS Em 2014, incentivada pelo poeta e ativista cultural, Rogério Salgado, voltei ao primeiro gênero literário, no qual me aventurei, desengavetando poemas guardados desde os meus 13 anos. Aceitei o desafio de participar do 10º Belô Poético (2014), encontro de poetas brasileiros idealizado por ele e pela poetisa, Virgilene Araújo.
Assim, passei a integrar o grupo de poetas que, além de recitarem seus textos, também tiveram a oportunidade de registrá-los na coletânea intitulada Poetas En/Cena, nº 8.
CV 10. Como você define a poesia inserida em sua trajetória pessoal e política?
A poesia sempre ocupou um lugar central em minha vida. Desde muito jovem, marcada por uma sensibilidade aguçada diante das desigualdades sociais, encontrei na escrita, especialmente na poesia, uma forma de expressão, resistência e amparo.
Na adolescência, registrei reflexões e desabafos em cadernos intitulados Espaço Aberto. Foram dez ao todo. O primeiro se perdeu, e no segundo está registrado aquele que considero o meu primeiro poema. Escrito em 1981, aos 13 anos, e, significativamente, intitulado: A pobreza, ele revela a minha precoce percepção crítica das injustiças sociais.
Já, em 2014, ao publicar poemas na coletânea Poetas En/Cena, retomei publicamente esse caminho e, desde então, não me afastei do gênero. Tenho participado de antologias, saraus e eventos literários, mantendo como eixo central o protesto contra todas as formas de opressão.
Posso afirmar que escolhi a poesia como minha principal forma de luta. Ela pode carregar em si uma força revolucionária, capaz de sensibilizar, provocar reflexão e mobilizar consciências. A canção “Caminhando”, de Geraldo Vandré, por exemplo, tornou-se símbolo de resistência à ditadura e permanece viva nas manifestações sociais, reafirmando o poder transformador da palavra poética.
“Posso afirmar que escolhi a poesia como minha principal forma de luta. Ela pode carregar em si uma força revolucionária, capaz de sensibilizar, provocar reflexão e mobilizar consciências”.
CV 11. Sua produção poética dialoga intensamente com a resistência social. Quais causas e enfrentamentos mobilizam sua escrita?
DS Eu estudo e realizo trabalhos no campo da música dos anos de 1960 e da imprensa independente da década de 1970, período em que sobrevivíamos a uma ditadura militar. Dedico-me a esses temas, desde 2005, o que representa mais de duas décadas de investigação sobre autoritarismo e resistência.
Sendo assim, o meu lema principal é combater esse tipo de regime político, porém, qualquer injustiça me comove e mobiliza, por isso uso os meus poemas para fazer resistência a toda forma de opressão, seja ela racial, de gênero, de classe ou ambiental.
Arte, cultura e democracia
CV 12. Qual é a importância dos projetos e dos espaços públicos e coletivos para a circulação da arte, incluindo a poesia? Há algum caso particular que você gostaria de destacar? Qual e por quê?
DS Na minha visão, a cultura deve ser democratizada. Por isso, considero os projetos e os espaços públicos essenciais à circulação de todo tipo de arte, pois ampliam o acesso, revelam talentos e fortalecem vínculos entre criadores e público. Esses ambientes contribuem para a construção de uma sociedade mais plural, sensível e cidadã.
Entre as experiências que marcaram minha trajetória, destaco o Belô Poético, no qual publiquei meus primeiros poemas e consolidei laços literários que permanecem até hoje. Também ressalto minha participação no Instituto Cultural Casarão das Artes Negras, especialmente por meio do projeto Canjerê, espaço de debates, performances e rodas de conversa voltados à valorização da cultura afro-brasileira.
A convite da curadora Rosália Diogo, passei a recitar poemas e compartilhar reflexões em algumas edições do evento. Tive ainda a honra de ver minha atuação cultural registrada na 25ª edição da revista Canjerê, publicação dedicada, prioritariamente, à memória e às iniciativas culturais de Belo Horizonte comprometidas com a herança africana.
Essa vivência ampliou significativamente minha compreensão sobre a cidade e o país em que nasci. Tornou-se ainda mais evidente, para mim, como a formação escolar tradicional privilegiou referências europeias, deixando lacunas importantes quanto às matrizes africanas que fazem parte da nossa identidade cultural. Como historiadora, essa constatação não é apenas uma reflexão crítica é, sobretudo, um alerta para a necessidade de mudança.
Acredito que a educação precisa assumir, com mais coragem e compromisso, a pluralidade da nossa formação histórica. Espero que iniciativas como o Casarão das Artes Negras se fortaleçam e que surjam cada vez mais espaços, projetos e publicações que contribuam para uma memória mais justa, inclusiva e fiel à diversidade que nos constitui como nação.
Assim, a cultura e a arte atuam como instrumentos de vigilância, memória e mobilização, contribuindo para o fortalecimento democrático e para a construção de uma sociedade mais consciente e participativa.
CV 13. Na sua visão, qual é o papel da arte na preservação da democracia?
DS Acredito que nossa democracia, embora ainda frágil, incompleta e marcada por falhas, precisa ser preservada e constantemente aprimorada. Nesse contexto, considero fundamental o papel da arte comprometida com a realidade social e política.
“A arte tem a capacidade de conscientizar, provocar reflexão e ampliar a percepção crítica da sociedade.”
Ela pode alertar para a importância da defesa da própria democracia, evidenciar injustiças sociais, questionar formas de dominação midiática e governamental e reafirmar direitos que, muitas vezes, permanecem apenas no discurso oficial.
Assim, a arte atua como instrumento de vigilância, memória e mobilização, contribuindo para o fortalecimento da democracia e para a construção de uma sociedade mais consciente e participativa.
CV 14. Por que você acredita que o Brasil ainda lida de forma insuficiente com a memória da Ditadura Militar?
Acredito que o Brasil ainda lida de forma insuficiente com a memória da Ditadura Militar devido à ausência de políticas públicas consistentes que incentivem o debate amplo e contínuo sobre o tema. Não percebo essa discussão como prioridade nem nas agendas governamentais nem nos meios de comunicação, o que contribui para a fragilidade do enfrentamento crítico desse período. E, talvez, como consequência disso, eu não tenha conhecimento de um movimento social suficientemente articulado e abrangente que reforce a importância da memória histórica e combata, de maneira firme, qualquer tentativa de relativizar ou defender regimes autoritários que violaram direitos humanos.
Os eventos relacionados ao tema ainda são pontuais e, em geral, restritos ao ambiente universitário, especialmente em datas próximas ao 31 de março ou 1º de abril de 1964. Muitas vezes, ocorrem com pouca divulgação e em espaços universitários, o que limita o alcance ao público em geral. Para que a rememoração e o combate a esse tipo de regime cumpram o seu papel, é fundamental que esse debate ultrapasse os muros acadêmicos e chegue de forma acessível à sociedade como um todo.
CV 15. Quais os principais desafios que você enfrentou ao longo dessa trajetória?
DS Um dos maiores desafios foi a questão financeira. Desde a adolescência, precisei conciliar trabalho, estudos e escrita, o que exigiu disciplina e resistência. Mesmo após concluir o mestrado e o doutorado, as dificuldades não cessaram: continuei dividindo minhas atividades profissionais entre pesquisas, estudos e trabalhos voluntários ligados aos meus temas acadêmicos e à poesia. Esse ritmo se manteve até minha aposentadoria, em fevereiro de 2025, após sucessivas reformas previdenciárias que também refletem um contexto político marcado por restrições sociais.
Outro desafio constante foi a própria natureza dos temas que escolhi estudar e abordar. A Ditadura Militar é um período pesado, doloroso e, muitas vezes, evitado por parte do público. Nem sempre há disposição para discutir assuntos que despertam melancolia ou desconforto. Soma-se a isso, uma certa solidão intelectual, já que, embora a temática seja fundamental para a compreensão do país, ainda são poucos os que se dedicam a ela de forma contínua.
CV 16. Que conselho você deixaria para quem deseja seguir um caminho ligado à educação, à arte, à pesquisa e à transformação social?
DS Hoje, com mais de 50 anos de vida e mais experiente, acredito no autoconhecimento como base de tudo. Posso dizer que trabalhar nesse conhecimento é fundamental, uma vez que, por meio dele, é possível obter segurança em relação à própria escolha profissional: ela foi feita por necessidade ou é algo inerente à sua alma?
Uma vez obtida essa certeza, a pessoa deve procurar, incansavelmente, pelo conhecimento, em aspectos gerais da formação humana e na sua área de atuação. Tudo deve ser feito com perseverança, disciplina, entrega e paixão. É importante, ainda, que a pessoa tenha foco e mantenha-se atenta à sua criação, pois, atualmente, fugir da dispersão é um grande desafio.
Outro conselho é praticar o exercício da paciência, da humildade e do respeito ao próximo, pois esses são valores essenciais para alcançar o objetivo de qualquer empreitada. Também é importante refletir continuamente sobre os seus atos, analisando se a prática está em conformidade com a teoria. Além disso, é preciso ter resiliência, já que esse não é um caminho fácil.
CV 17. O que você planeja para 2026? Tem alguma surpresa preparada para seus leitores e admiradores?
Entre os meus principais projetos, está a escrita das memórias sobre o meu pai, José Silveira, falecido, em 1972, quando eu tinha, apenas, quatro anos. A ideia nasceu em 2007, mas só em 2020, passados quase 50 anos, dediquei-me a essa reconstrução.
Ao iniciar o texto, perguntei-me: por que tenho essa vontade de descobri-lo? Entendi que descobrir era o verbo certo para a empreitada, mesmo com a certeza da impossibilidade de concretizá-la por completo. Para resolver a questão, apoiei-me nos sábios, como sempre faço.
Então, Fernando Pessoa soprou ao meu ouvido que: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena” e, Rachel de Queiroz confirmou o que eu já pressentia: “[…] Falam que o tempo apaga tudo. Tempo não apaga, tempo adormece”.
Desperta, reuni fragmentos de sua existência e iniciei. Neste mundo de desafios constantes, esse sonho foi interrompido por vários acontecimentos, pois, como bem disse Guimarães Rosa, “a vida é feita de poucas certezas e muitos dar-se um jeito”.
Sigo, entretanto, comprometida em finalizar a obra, prova disso é que, em 2025, avancei muito nesse longo percurso e acredito que, em 2026, conseguirei publicar mais esse livro. Posteriormente, iniciarei a organização de outra obra: a minha primeira coletânea de poesias autorais, com poemas escritos a partir dos meus 13 anos.
“E ao terminar esta entrevista, revelando que tenho muitos sonhos na área da literatura, aconselho a todos a trabalharem para materializar os seus, pois como Mia Couto me ensinou “devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga”.
Contatos:
E-mail: dalvasilveira@yahoo.com.br
Instagram: _dalvasilveira
Por fim, deixo para vocês um poema que, em linhas gerais, apresenta o meu pensamento sobre o ato de viver:
Abrindo o presente
Dalva Silveira
A velhice e a infância
São duas fases bonitas!
Nascemos com a inocência
Buscamos a sabedoria,
O que fazer com o embrulho?
Abrir o laço de fita!
A aurora é o grande presente
Ainda estamos em casa
O poente é fruto da estrada,
De insistente vigília
De plantar sementes
De criar várias famílias!
Eu quero experimentar todos os sabores
Enxergar todas as cores
Extrair o que for bom até nas dores
E depois de atravessar todas as pontes
Quero ser digna de todas as flores!

